Uma carta às autoridades brasileiras — escrita por quem vive longe, ama o Brasil e acredita que pode ser diferente.
Escrevo esta carta do exterior — como fazem milhões de brasileiros espalhados por mais de 190 países. Escrevo sem raiva, sem ressentimento, mas com a urgência de quem ama o Brasil o suficiente para dizer o que precisa ser dito: nossas embaixadas estão presas no século passado.
O brasileiro que vive fora do Brasil — e são mais de 4 milhões de nós — encontra nas embaixadas e consulados, na maioria dos casos, o mesmo: filas, formulários, servidores sobrecarregados, sistemas que não funcionam, agendamentos que demoram meses e uma sensação persistente de que estamos pedindo um favor ao próprio país. Como se a nossa simples existência fora do Brasil fosse um inconveniente.
A embaixada deveria ser a casa do brasileiro no exterior — não o cartório onde você vai rezando para não precisar ir.
— Sentimento unânime da comunidade brasileira no exteriorEste não é um texto de crítica vazia. É um convite. Um convite para imaginar o que as embaixadas brasileiras poderiam ser se decidissem olhar para a comunidade com respeito, com criatividade e com a consciência de que cada brasileiro no exterior é um embaixador informal do Brasil — e que tratá-lo bem é a política externa mais eficiente que existe.
Outros países entenderam isso faz tempo. A Índia transformou suas embaixadas em centros de promoção cultural e econômica. A Coreia usa seus consulados como braço do soft power nacional. A Itália atende a descendentes de segunda e terceira geração com programas de reconexão cultural. O México criou redes de suporte legal e econômico para seus migrantes que viraram referência mundial. O Brasil tem mais para oferecer do que qualquer um deles — e ainda não começou.
Antes de qualquer coisa, precisamos resolver o básico — e o básico está quebrado. Agendamento consular que demora 6, 8, 12 meses é abandono institucional. Sistemas que caem no momento do acesso não são falhas técnicas — são sinais de que a infraestrutura não foi projetada para servir.
Passaporte, registro, certidões, declarações, alertas de viagem, emergências. Tudo em um aplicativo que funcione offline e online. Portugal, Estônia e Alemanha já têm isso. O Brasil tem tecnologia para fazer melhor.
Videochamada com servidor consular para documentação que não exige presença física. 80% dos atendimentos consulares podem ser resolvidos remotamente. Presença física apenas para biometria e casos específicos.
Para dúvidas sobre documentação, prazos, procedimentos e emergências fora do horário comercial. Integrado ao WhatsApp — o canal que o brasileiro já usa. Com escalonamento para humano quando necessário.
Brasileiros são presos, sofrem acidentes, perdem documentos, são vítimas de crime em qualquer hora do dia. Plantão 24h com servidor que fale português e tenha poder de agir — não apenas um número que não atende.
Eliminar exigências redundantes, digitalizar assinaturas, aceitar documentos apostilados digitalmente. O brasileiro no exterior não deveria precisar de advogado para entender o próprio consulado.
A embaixada brasileira deveria ser, em cada cidade do mundo onde existe, o lugar mais fascinante para entender o Brasil. Uma sala de estar da nossa civilização. Um espaço onde um alemão, um japonês ou um americano entre curioso e saia transformado pela riqueza do que somos.
E — mais urgente ainda — onde o filho de brasileiro nascido no exterior descubra que não perdeu nada de sua herança. Que ainda pode se conectar com a língua, com a floresta, com os povos, com a música que seus pais trouxeram na bagagem emocional quando partiram.
Um filho de brasileiro em Berlim não deveria precisar ir ao YouTube para descobrir quem são os Yanomami. Deveria poder ir à embaixada.
— O que estamos perdendo a cada geração no exteriorNão uma sala de espera com um mapa do Brasil na parede. Um espaço projetado: biblioteca de literatura brasileira, exposição permanente de arte brasileira contemporânea e indígena, sala de eventos, estúdio para transmissões digitais. A França tem o Institut Français em 98 países. O Brasil tem o CCBB em... poucos. É hora de multiplicar.
A segunda geração perde o português. É uma tragédia silenciosa. A embaixada deveria oferecer cursos de português para filhos de brasileiros — prioritários, gratuitos ou subsidiados. Em parceria com o MEC e universidades brasileiras. Certificação reconhecida pelo CELPE-Bras. A língua é o vínculo mais profundo com o país.
A Amazônia é o maior ativo de soft power que o Brasil tem — e ainda não a usa como deveria. Ciclo de palestras com pesquisadores, indígenas e ambientalistas brasileiros em embaixadas de todo o mundo. Exposições fotográficas itinerantes. Documentários em parceria com a FUNAI, ISA e IBGE. O mundo quer saber — o Brasil precisa contar.
256 povos indígenas. 180 línguas vivas. Uma das maiores biodiversidades culturais do planeta — e a maioria dos brasileiros no exterior não sabem isso. Cursos online e presenciais sobre cosmologia, arte, medicina e línguas indígenas brasileiras, em parceria com a FUNAI, universidades e os próprios povos. Gratuitos. Certificados. Ofertados via embaixada.
Bossa Nova, Baião, Samba, Axé, Funk Carioca, Forró, MPB, Maracatu. Nenhum país tem uma diversidade musical comparável à brasileira. Saraus mensais nas embaixadas. Parcerias com músicos brasileiros no exterior. Arquivo digital das músicas folclóricas regionais acessível ao público mundial. A música abre portas que documentos não conseguem.
O Brasil é o único país com cinco biomas gastronômicos completamente distintos — e o mundo quase não sabe. Oficinas de culinária brasileira nas embaixadas. Cachaça, azeite de dendê, tucupi, jambu, cumaru. Parceria com chefs brasileiros no exterior para ativações regulares. A comida conta histórias que o discurso diplomático não alcança.
A Capoeira já é patrimônio imaterial da UNESCO. O Jiu-Jitsu brasileiro é praticado em 100+ países. O Forró atrai dançarinos em toda a Europa. Apoio formal a mestres e professores brasileiros no exterior. Certificação consular. Eventos nas embaixadas. O Brasil que o mundo ama está no corpo, na ginga, no ritmo — e a embaixada pode ser o ponto de convergência.
Mais de 4 milhões de brasileiros vivem fora do Brasil. Juntos, eles enviaram ao país R$76 bilhões em remessas em 2023 — mais do que muitos estados brasileiros arrecadam em um ano inteiro. Esses brasileiros são a maior política de desenvolvimento que o Brasil não gerencia.
Além das remessas, eles carregam conhecimento, conexões internacionais, domínio de idiomas e experiência de mercado que o Brasil desperdiça sistematicamente. Um brasileiro que trabalhou 10 anos em engenharia na Alemanha e quer voltar deveria encontrar uma embaixada que o ajude a fazer a ponte — não um vazio institucional.
Brasileiros são explorados no exterior porque não conhecem seus direitos. Plantão jurídico semanal com advogado especializado em direito trabalhista do país sede. Parceria com universidades, ONGs e ordens de advogados locais. Atendimento presencial e online. Prioridade para denúncias de exploração e tráfico.
O Brasil tem empreendedores excepcionais em Silicon Valley, em Londres, em Cingapura, em Dubai. Registro de empreendedores brasileiros no exterior. Encontros presenciais nas embaixadas. Conexão com o Apex-Brasil, BNDES e programas de inovação. Uma embaixada que conecta talentos é mais poderosa do que qualquer acordo comercial.
Cada embaixada deveria ser um ponto de promoção de produtos brasileiros: artesanato indígena, cachaça artesanal, café especial, moda brasileira, design brasileiro. Parceria com o SEBRAE e Apex-Brasil para que micro e pequenos produtores brasileiros tenham presença em prateleiras internacionais via rede consular.
Milhares de brasileiros no exterior acumularam competências raras e querem voltar — mas não sabem como reinserir suas qualificações internacionais no Brasil. Banco de talentos da diáspora. Parceria com empresas e universidades brasileiras. Orientação sobre revalidação de diplomas estrangeiros. O Brasil perde cérebros por falta de uma simples ponte.
A solidão, o luto migratório, a saudade e o choque cultural têm um custo humano real que nenhuma estatística consular registra. Parcerias com psicólogos brasileiros no exterior para atendimento subsidiado. Grupos de apoio presenciais nas embaixadas. Linha de acolhimento emocional em português. Cuidar de quem cuida do Brasil lá fora.
Um portal único onde brasileiros no exterior se registram, se encontram, oferecem e buscam serviços, acessam informação consular e participam da vida cívica brasileira de longe. Com integração ao voto no exterior facilitado, notícias em português, e conexão com a rede de embaixadas. A diáspora como um país dentro do país.
Aqui está a proposta mais ousada — e a mais necessária. Precisamos repensar o que uma embaixada é, em sua essência. Ela não é apenas um posto avançado da burocracia federal. Ela é, ou poderia ser, um ponto de encontro entre o que o Brasil foi, o que o Brasil é e o que o Brasil pode se tornar.
O que pedimos não é utopia. É o que países como a França, a Alemanha, o Japão, a Índia e a Coreia já fazem. É transformar a embaixada de posto cartorário em espaço vivo — cultural, humano, econômico e comunitário. É tratar o brasileiro que vive fora do Brasil não como um problema consular a ser gerenciado, mas como um ativo nacional a ser valorizado.
Cursos online em parceria com universidades federais brasileiras: história do Brasil, cultura afro-brasileira, meio ambiente e sustentabilidade amazônica, empreendedorismo brasileiro, literature nacional. Gratuitos. Certificados pelas universidades. Acessíveis em todo o mundo. Para brasileiros — e para quem ama o Brasil.
Enquanto a Amazônia recebe atenção global, o Cerrado — o berço das águas — e o Pantanal — o maior área úmida do planeta — são invisíveis. Exposições, documentários e palestras sobre esses biomas nas embaixadas brasileiras. O Brasil tem mais natureza do que consegue contar — a embaixada pode ser o contador de histórias.
Um acervo de literatura brasileira — de Machado de Assis a Conceição Evaristo, de Guimarães Rosa a Ailton Krenak — que circula entre embaixadas e consulados. Com programa de doação para escolas e universidades do país sede. O livro é o embaixador mais silencioso e mais duradouro.
O brasileiro no exterior tem direito a voto — mas votar é, em muitos países, uma maratona burocrática que desencoraja a participação. Postos de votação em mais cidades, digitalização do processo, campanha ativa de cadastro eleitoral no exterior. Pertencer ao Brasil é também poder influenciar seus rumos de longe.
O Brasil que vive no exterior não é o Brasil que fugiu. É o Brasil que foi — e que pode trazer o mundo de volta.
— A nova leitura da diáspora brasileiraSabemos que recursos são limitados. Sabemos que a máquina pública tem inércias profundas. Sabemos que o Itamaraty tem desafios reais e não apenas vontades políticas. Por isso não pedimos tudo de uma vez. Pedimos que comecem. Pedimos que escolham uma embaixada, uma cidade, uma iniciativa — e a façam funcionar de verdade. A excelência replicável começa com o exemplo.
Pedimos também que escutem. Que criem conselhos consultivos de brasileiros no exterior com poder real de proposta. Que ouçam os que moram em Tóquio, em Lisboa, em Toronto, em Dubai, em Buenos Aires — porque eles conhecem as necessidades que nenhum servidor lotado em Brasília consegue imaginar sentado no próprio gabinete.
O Brasil é um dos países mais extraordinários do mundo. Tem a maior floresta tropical do planeta, a maior biodiversidade, uma das línguas mais belas que a humanidade criou, uma cultura que mistura 300 povos indígenas, a diáspora africana, os imigrantes europeus e asiáticos em algo único e irreproduzível. Nossas embaixadas deveriam ser a prova viva disso. Ainda não são. Podem ser.
Com respeito, com esperança e com a convicção de que o Brasil tem mais a oferecer ao mundo do que qualquer política externa já imaginou —
Esta carta foi escrita pelo projeto Burrinho Esforçado e pode ser livremente compartilhada,
republicada e enviada às autoridades brasileiras competentes.
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